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Preservação oncológica da fertilidade

Pacientes que passam por intervenções agressivas, como quimioterapia e radioterapia, podem sofrer efeitos colaterais sobre diversas ações do organismo, inclusive funções reprodutivas. Pessoas que ainda não têm filhos e vão iniciar um tratamento de câncer devem ser informadas sobre a possibilidade de recorrer à preservação oncológica da fertilidade.

Com as técnicas de preservação da fertilidade, feminina e masculina, os pacientes podem congelar seus gametas para tentar uma gestação no futuro. O congelamento também pode ser feito com embriões ou partes dos tecidos ovarianos e testiculares. 

A criopreservação é uma técnica da reprodução assistida, e para ter acesso a esse tipo de tratamento, os pacientes precisam passar pelas outras etapas da FIV (fertilização in vitro).

Leia este texto para ter mais informações sobre preservação oncológica da fertilidade!  

Impactos dos tratamentos de câncer na fertilidade

Tratamentos oncológicos podem causar vários impactos na capacidade de reprodução de homens e mulheres, de forma temporária ou permanente. Assim como as intervenções farmacológicas têm potencial para destruir as células cancerígenas, também podem prejudicar as funções das células reprodutivas. 

Os efeitos colaterais vão desde alterações nos níveis dos hormônios — substâncias fundamentais para a ação do sistema reprodutor — até a remoção cirúrgica de testículos, útero ou ovários. A intensidade dos efeitos depende de fatores como idade, tipo de neoplasia e métodos de tratamento.   

Quimioterapia e radioterapia são tratamentos gonadotóxicos, isto é, afetam o funcionamento das gônadas. Nas mulheres, as consequências dos processos farmacológicos incluem redução na quantidade de óvulos e risco de falência ovariana prematura (FOP). Nos homens, pode haver comprometimento na produção e na qualidade dos espermatozoides, bem como alteração no DNA dos gametas.

Preservação oncológica da fertilidade feminina

Para preservar a fertilidade feminina, há três alternativas: congelar os óvulos, partes do tecido ovariano ou os embriões. Para realizar o congelamento dos gametas, a mulher passa pela estimulação ovariana — tratamento no qual ela recebe medicamentos hormonais que estimulam o desenvolvimento dos folículos ovarianos e resultam em uma quantidade maior de óvulos maduros.

Por meio de ultrassonografias periódicas — a cada dois ou três dias — é possível observar o crescimento dos folículos. Quando estes estiverem em fase de maturação final, é feita a punção folicular. Os gametas são retirados de suas estruturas em laboratório, e em seguida são analisados e selecionados para o congelamento.

Conforme o tipo e o estágio do câncer, a criopreservação do tecido ovariano é indicada à paciente — essa alternativa também é recomendada para meninas pré-púberes que precisam passar por tratamentos oncológicos. Para isso, fragmentos do tecido são coletados por videolaparoscopia. 

O procedimento é minimamente invasivo e realizado com equipamentos de tecnologia avançada, que permitem inspecionar o interior do corpo humano, com a ajuda do sistema de fibra óptica, minicâmeras e monitores. Após serem coletados, os fragmentos são criopreservados. 

Contudo, o congelamento de tecido ovariano é mais bem-sucedido se a mulher apresentar boa reserva de folículos. Quando descongelado, o tecido é reimplantado na paciente para possibilitar uma futura gestação. Essa técnica ainda é pouco realizada e tem caráter experimental, portanto deve ser reservada aos casos em que não é possível preservar os óvulos maduros ou os embriões formados. 

Por fim, há a opção de gerar os embriões e congelá-los. Veremos mais detalhes dessa técnica adiante.

Preservação da fertilidade masculina

A criopreservação oncológica da fertilidade masculina é feita com o congelamento dos espermatozoides. A maior parte dos homens pode coletar seu esperma por meio da masturbação. Nos casos de azoospermia — ausência de gametas no fluído seminal — existem procedimentos de recuperação espermática que permitem extrair as células germinativas diretamente dos testículos ou do epidídimo.

Depois de coletados, os espermatozoides são selecionados em laboratório com técnicas de preparo seminal, seguindo parâmetros de avaliação macroscópica e microscópica. Elementos como cor da substância, viscosidade, liquefação, pH e volume ejaculado são observados na análise macroscópica. Já a investigação microscópica considera critérios como concentração, vitalidade, morfologia e motilidade dos gametas. 

Os espermatozoides de melhor qualidade são, então, separados para a criopreservação. Após o tratamento oncológico, ou quando o homem desejar ter filhos, é dada continuidade aos processos de reprodução assistida. 

Criopreservação de embriões 

Também é possível fazer a criopreservação dos embriões — essa alternativa é mais procurada quando o homem ou a mulher em tratamento oncológico já tem um relacionamento estável. Nesses casos, são feitas quase todas as etapas da FIV, restando apenas a transferência dos conceptos para o útero. 

O processo da FIV inclui cinco etapas: 

Nos tratamentos habituais, a criopreservação é realizada, em alguns casos, como uma sexta etapa da FIV, quando há conceptos excedentes. Já nas ocasiões em que os embriões são gerados com o objetivo de serem congelados, o processo é interrompido após o estágio de cultivo embrionário e retomado quando os pacientes puderem dar sequência ao tratamento. 

Possibilidades de gestação e alternativas de tratamento

A criopreservação não altera a qualidade dos materiais biológicos e a taxa de sobrevida dos gametas e embriões é quase total. Da mesma forma, se a paciente não teve o aparelho reprodutor severamente afetado pelo câncer, a gravidez tende a transcorrer sem maiores complicações.

As taxas de gestação a partir de tratamentos de FIV são bem expressivas, superando, inclusive, as chances de concepção em ciclos naturais. Mas o sucesso da técnica está diretamente relacionado a fatores como a idade da mãe. 

Por fim, quando os pacientes não conseguem produzir uma quantidade viável de gametas — ou nos casos em que a mulher passou por retirada dos ovários ou do útero — há ainda técnicas alternativas da reprodução assistida que possibilitam a gravidez, como doação de gametas e útero de substituição.