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Transferência de blastocistos

Para começarmos a falar sobre transferência de blastocistos, é importante explicar as etapas iniciais do desenvolvimento embrionário. Tudo começa com a fecundação, que ocorre quando o espermatozoide faz contato com a membrana plasmática do ovócito. Em seguida, acontece a fusão dos gametas e a mistura cromossômica que dá origem ao zigoto. 

A fase de clivagem tem início cerca de 30 horas após a fertilização, caracterizando o processo de divisão celular que transforma o zigoto em mórula. No terceiro dia de desenvolvimento embrionário, a mórula apresenta um conjunto de 12 a 16 blastômeros — células resultantes da clivagem. 

Cinco dias após ser fertilizado, o óvulo atinge o estágio de blastocisto e contém um agrupamento de 50 a 60 blastômeros. Na FIV (fertilização in vitro), esse é considerado um momento ótimo para fazer a transferência dos embriões para o útero. 

FIV e transferência de blastocistos

A FIV é considerada uma técnica de alta complexidade da reprodução assistida e passa por várias etapas antes da transferência dos blastocistos. O tratamento começa com a estimulação ovariana, fase em que a mulher recebe medicamentos hormonais para estimular o crescimento dos folículos ovarianos. Quando atingem o tamanho necessário, os folículos são aspirados e os óvulos são encaminhados para análise e seleção.

Ainda na etapa de escolha dos gametas, é feito o preparo seminal. Nesse procedimento, os espermatozoides são coletados e selecionados, com base nos parâmetros de vitalidade, morfologia e motilidade. O momento seguinte do processo de FIV é a fecundação, que pode ser realizada com a técnica clássica ou com injeção intracitoplasmática de espermatozoides (ICSI).

No modo clássico da FIV, as células germinativas são posicionadas em uma placa de cultura para que o espermatozoide encontre o óvulo e o fertilize. Com a ICSI, o gameta masculino é introduzido diretamente no ovócito, acelerando e otimizando o processo de fecundação. 

Com o óvulo fertilizado, começa a etapa de cultivo embrionário. Durante um período de 3 a 6 dias, a divisão celular dos embriões é acompanhada. Ao atingir o estágio de blastocisto, os conceptos são transferidos para continuar seu desenvolvimento no ambiente intrauterino.  

Possibilidade de transferência em fase anterior

Ainda há discussões acerca do momento ideal para fazer a transferência dos embriões: com 3 dias de desenvolvimento (D3) ou em fase de blastocisto (D5). Na gestação natural, a fixação do embrião na parede uterina ocorre em estágio de blastocisto. Na FIV, portanto, acredita-se que esse seja o momento propício para adaptação do concepto ao útero. 

Mas há situações em que a transferência em D3 é considerada a medida mais adequada. Um exemplo é a baixa qualidade dos embriões, que pode dificultar a divisão celular até a fase de blastocisto. Nesses casos, o ambiente uterino pode ser mais favorável para o desenvolvimento embrionário. 

O mesmo acontece quando apenas uma pequena quantidade de óvulos é viável para fertilização, o que resulta em um número reduzido de embriões formados. Para evitar o risco de que eles tenham seu desenvolvimento interrompido antes de se transformarem em blastocistos, a transferência é realizada em D3. 

Essa indicação pode ser feita no tratamento de pacientes com idade avançada, uma vez que a qualidade oocitária tende a sofrer declínio conforme a faixa etária da mulher. Da mesma forma, quando há fatores de infertilidade masculina que prejudicam a qualidade dos espermatozoides, a transferência em D3 pode ser uma alternativa. 

Contudo, cada caso precisa de avaliação individualizada. O momento adequado para transferência é definido de acordo com a evolução dos embriões em laboratório e com as condições endometriais.  

Pontos a favor da transferência de blastocistos

Com 5 dias de cultivo embrionário, é possível observar que os embriões já estão bem desenvolvidos e apresentam mais chances de garantir a evolução saudável da gravidez. Também é observada a sincronização fisiológica, visto que na gestação natural a implantação ocorre em estágio de blastocisto. 

A recuperação dos efeitos hormonais é outra vantagem da transferência de blastocistos. No início do tratamento, na etapa da estimulação ovariana, a paciente recebe altas quantidades de hormônios para induzir a produção de óvulos. A cultura estendida dos embriões — por 5 ou 6 dias — favorece o restabelecimento do organismo materno, garantindo as funções adequadas do sistema reprodutor para abrigar e desenvolver o concepto. 

Um dos principais pontos a favor da transferência de blastocistos, em comparação com o procedimento em D3, é o rastreio seguro de doenças gênicas e alterações cromossômicas. Nessa fase, o embrião já apresenta quantidade suficiente de células para que sejam feitas a biópsia e a análise genética. 

O estudo embrionário é feito por meio do teste genético pré-implantacional (PGT). Sua finalidade é evitar a transmissão de genes defeituosos, assim como analisar anomalias na estrutura ou na quantidade dos cromossomos. 

Dessa forma, é possível transferir apenas os embriões mais saudáveis, reduzindo o risco de anormalidades e abortamentos. O sucesso gestacional, nesses casos, está associado a seleção dos conceptos de melhor qualidade. Isso é feito com mais precisão com a cultura estendida, que permite a análise de uma quantidade expressiva de células desenvolvidas. 

Contudo, quando a indicação é feita de forma precisa, baseada nas características do casal, tanto a transferência de blastocistos quanto em D3 podem resultar em gestações bem-sucedidas.